A toxina botulínica (Botox) ficou conhecida inicialmente pelo uso estético, mas há muitos anos também é utilizada no tratamento de diferentes doenças neurológicas. Uma de suas principais aplicações é na prevenção da enxaqueca crônica.
Na enxaqueca, sua ação vai além do simples relaxamento muscular: ela interfere em mecanismos envolvidos na transmissão da dor e pode reduzir a frequência e intensidade das crises de dor.
Para quem a toxina botulínica é indicada?
A principal indicação é a enxaqueca crônica.
Consideramos enxaqueca crônica quando a pessoa apresenta dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, durante mais de três meses, sendo que em pelo menos 8 desses dias a dor apresenta características de enxaqueca ou responde a medicamentos específicos.
É nesse grupo que existem as melhores evidências científicas para o uso da toxina botulínica.
Como a toxina botulínica age na enxaqueca?
Durante a enxaqueca ocorre ativação de terminações nervosas envolvidas na transmissão da dor e liberação de diferentes mediadores.
A toxina botulínica tipo A interfere na liberação dessas substâncias e reduz a ativação de terminações nervosas periféricas, ajudando a diminuir a sensibilização das vias da dor.
Por isso, as aplicações são realizadas em regiões específicas da cabeça e do pescoço, seguindo um protocolo desenvolvido para a enxaqueca crônica.
Como é feita a aplicação?
O protocolo mais estudado é conhecido como PREEMPT, utilizado nos principais ensaios clínicos sobre o tratamento.
São feitas pequenas aplicações na testa, têmporas, região posterior da cabeça, pescoço e musculatura próxima aos ombros.
No protocolo clássico são utilizadas entre 155 e 195 unidades de onabotulinumtoxinA, distribuídas em 31 a 39 pontos.
As aplicações são habitualmente repetidas a cada 12 semanas.
O procedimento é realizado em consultório.
Qual é a eficácia?
Os principais estudos foram os ensaios PREEMPT, que envolveram mais de 1.300 pacientes com enxaqueca crônica.
Após 24 semanas, os pacientes tratados com toxina botulínica apresentaram redução média de aproximadamente 8,4 dias de dor de cabeça por mês.
Entretanto, a resposta individual varia bastante. Alguns pacientes apresentam benefícios importantes, enquanto outros podem ter uma resposta menor.
Além da frequência das dores, estudos também demonstraram melhora da incapacidade relacionada à enxaqueca e da qualidade de vida.
O resultado aparece já na primeira aplicação?
Algumas pessoas percebem melhora nas primeiras semanas, mas a resposta não deve ser julgada apenas pela primeira aplicação.
Existem pacientes que respondem somente após o segundo ciclo. Por isso, diretrizes especializadas recomendam avaliar a resposta ao longo de dois ciclos antes de considerar o tratamento ineficaz.
O diário de cefaleia é muito útil para comparar a frequência das crises antes e depois do início do tratamento.
A toxina botulínica é segura?
De maneira geral, apresenta bom perfil de segurança quando utilizada corretamente.
Os efeitos adversos mais comuns são locais e transitórios, como dor nas aplicações, desconforto ou rigidez cervical e fraqueza localizada. Em alguns casos pode ocorrer queda temporária da pálpebra ou alteração da posição das sobrancelhas.
Eventos adversos importantes são incomuns .
Toxina botulínica trata a crise de enxaqueca?
Não. A toxina botulínica é um tratamento preventivo.
Seu objetivo não é interromper uma crise já iniciada, mas reduzir a frequência e o impacto das crises ao longo dos meses.
Medicamentos usados durante a crise, como analgésicos ou triptanos, possuem uma função diferente dentro do tratamento.
O tratamento precisa ser individualizado
A enxaqueca crônica pode ser bastante incapacitante e frequentemente exige combinação de diferentes estratégias.
Sono, atividade física, identificação de fatores desencadeantes, uso adequado de medicamentos para as crises e escolha do tratamento preventivo fazem parte dessa abordagem.
A toxina botulínica é uma das opções com eficácia comprovada para prevenção da enxaqueca crônica. A decisão de utilizá-la deve considerar frequência das dores, tratamentos prévios e características de cada paciente.
A avaliação com neurologista permite confirmar o diagnóstico e definir qual estratégia preventiva é mais adequada para cada caso.
Em caso de dúvidas, consulte o neurologista.
Referências
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